"A cena é singela: num ambiente asséptica e imaculadamente branco (antecipando tratar-se de uma experiência científica),
são colocadas duas caixas azuis, dessas de transportar animais.
Numa delas estão quatro lindos filhotes de cachorro, pela aparência recém-desmamados, coisa de três ou quatro meses de vida;
na outra caixa, o mesmo número de gatinhos, idem idem.
Na apresentação do vídeo, a observação: os filhotes de cão jamais viram um gato e vice-versa. Mais irrequietos, os gatinhos são os primeiros a sair da caixa, saltitando e buscando algo para brincar. Já os cãezinhos demonstram timidez, relutando em abandonar o aconchego da acolchoada caixa; porém, assim que o primeiro se aventura, os irmãos o acompanham. No ambiente vazio, sem um objeto sequer à mão (ou, no caso, à pata), um dos gatinhos vê no bicho peludo algo para brincar. Rapidamente se estabelece a empatia entre as duas ninhadas, e logo todos estão harmonizados nas brincadeiras. O passo seguinte da experiência, a alimentação, é igualmente uma demonstração de harmonia: caninos e felinos compartilham as gamelinhas de leite.
Trata-se, no final das contas, de um experimento sociológico: ainda que os animais tenham o instinto que os aproxima dos semelhantes, nada há que os impeça de manter entendimento com outra espécie. Ali, na sala branca, são todos filhotes, com as mesmas características e necessidades: brincar, tomar leite, dormir...
Pouco importa aos gatos que quatro dos 'amiguinhos' sejam mais robustos, peludos e não tenham orelhas empinadas.
Do mesmo modo, os cãezinhos se habituam aos pulos dos magricelas e suas lambidas ásperas.
Eles não sabem que 'cães e gatos não se dão'; apenas convivem, e se forem mantidos no mesmo ambiente durante toda a vida, certamente continuarão 'amigos'.
A tal experiência nada comenta sobre humanos, mas certamente o mesmo entendimento ocorreria entre bebês colocados lado a lado. Até imaginei a cena: numa creche situada em qualquer cidade – digamos em Israel –,( ABAIXO )
são recebidas duas crianças de 1 ano de idade, uma filha de israelenses,
outra de palestinos.
A dona do estabelecimento
faz o trivial: deixa ambas no mesmo ambiente, com brinquedos e outros atrativos; mais tarde, alimentará as crianças na mesma mesa, com comida igual; na hora do soninho, Davi e Samir dividem o colchonete no chão; no dia seguinte, sorriem de alegria ao rever o amiguinho. Eles não sabem que ' são inimigos '. Se os pais não forem radicais, permitirão que a amizade se solidifique ao longo dos anos. Digamos que sejam Davi e Samira. O que os impede de, um dia, trocar alianças e iniciar uma família?
Resposta óbvia: impede-os a intolerância, o radicalismo de pessoas que vão lhes dizer que a convivência entre opostos é impossível.
Agora eu pergunto (e não encontro respostas): por que não permitir que seres humanos busquem o entendimento? Por que enfatizar as diferenças? Afinal, se até caninos e felinos, antagônicos por instinto, conseguem conviver,
humanos têm a capacidade de raciocinar e concluir que a harmonia é mais vantajosa. Penso que falta, na receita de bolo do entendimento, o principal ingrediente: fartas porções de tolerância ."
































