segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

História Apagada

Diz um velho  ditado popular - " Filho de peixe peixinho é " - e a história que contaremos é uma prova de que nem sempre isso é verdade ........Consertar sapatos ? JOSEPH FENDRICH logo percebeu que o ofício exercido tanto pelo seu pai - FRIEDRICH - quanto por seus irmãos - FRANZ e FRIEDRICH - não seria o seu futuro . Visionário e observador , logo notou algo : naquela pequena vila chamada SÃO BENTO DO SUL , fundada apenas 3 décadas antes e colonizada em sua esmagadora por imigrantes de fala alemã originários da região da Boêmia , ou Boehmerwaldt ( hoje a região pertence à República Tcheca mas à época fazia parte do extenso Império Austro-Húngaro , país que incluía partes do centro e do leste da Europa ) , existiam pouquíssimos AÇOUGUEIROS ......Mudou-se de mala , esperança e cuia para Curitiba , onde acabou trabalhando e aprendendo o ofício com açougueiro REINHOLD GARMATTER em estabelecimento localizado na então rua José Bonifácio , hoje uma calçadão ao lado da catedral  daquela cidade . Voltando à sua São Bento natal , Joseph deu início não apenas a um novo estabelecimento explorando algo então pouco comum no lugar mas a uma verdeira tradição , que duraria mais de 100 anos ! Ah , quantas histórias não aconteceram naquele açougue localizado bem no região central da cidade , à rua Felipe Schmidt , número 211.......Quantos amigos , parentes , vizinhos , pessoas ilustres na comunidade e até mesmo inimigos não se encontraram ali e , tendo como pretexto as incríveis delícias dali , não jogaram conversa fora e mataram a saudade relembrando velhos " causos " ......Quantos fatos curiosos , bizarros e até engraçados não aconteceram ali ......
      Até mesmo um fato trágico-policial teve lugar ali : em 1981 um de seus proprietários - BENTO CARLOS - acabou morrendo em um assalto , justamente ironicamente no dia em que completava 50 anos de idade.......O nascimento daquele que foi um dos pontos mais tradicionais daquela cidade foi noticiado assim pelo jornal DER VOLKSBOTE , em sua edição de 15 de agosto de 1908 : " ABERTURA DE NEGÓCIO : Comunico ao distinto público de São Bento e adjacências que acabo de inaugurar nesta Vila , na antiga casa 'Becker ' , na rua Glueltzow , um AÇOUGUE Vendendo às terças-feiras e aos sábados , CARNE DE GADO e , ás sextas-feiras , CARNE DE SUÍNOS . Mantenho também uma primorosa FRIAMBEIRA , Recomendando às esclarecidas e dedicadas donas-de-casa , especialidades como : salame rosa , salame 'cervelat ' , chouriço , morcília , linguiça prensada , presunto , finas carnes defumadas , toucinho defumado , etc.....Todos os sábados , á tardinha , salsichas de Viena fresquinhas ! Benevolente afluência pede José Fendrich " ( Joseph , ou José , morreu em 20 de novembro de 1940 e o açougue ficou com os seus descendentes ) ..........Confesse : com certeza você acabou de ficar  com água na boca ! Na crônica gastronômico saudosista de hoje o escritor DONALD MALSCHITZKY , um filho de São Bento , relembra uma história relacionada ao tradicional açougue vivenciada por ele mesmo ainda na infância e chama a atenção para o final - nada feliz - desse estabelecimento e que mais uma vez demonstra a criminosa maneira como a história e a memória são tratados no Brasil . CONFIRA : 

"Era  uma aventura para o menino de, talvez, uns cinco ou seis

anos de idade

 que saía do que parecia uma lonjura e andava até o 

centro de São Bento ( ABAIXO , RUA DO CENTRO DE SÃO BENTO DO SUL - JORGE LACERDA - EM FOTO DA DÉCADA DE 50 )  levando uma sacola de cabo de argolas de 

alumínio que teimavam em azular as mãos.

 Dentro dela, um bilhete 

especificando a carne que deveria comprar. Entregava- a ao 

açougueiro

 e a recebia de volta com a encomenda e o valor era 

lançado na caderneta.  


Às vezes,  levava uma lata de biscoitos para colocar a carne 

moída. 

No caminho, havia um funcionário público  que   amarrava o 

cachorro dele na calçada, em frente a seu local de trabalho. 

Na 

volta do açougue, ao passar por lá,  ele pulou em mim, querendo 

brincar, saí da calçada 

e o dono dele resolveu dar a ré em sua 

caminhonete justamente naquele momento, derrubando-me. Sem 

dar-se conta,  foi-se embora.  


Com o impacto, a lata abriu-se e a carne ficou espalhada no 

chão. 

O medo de apanhar fez-me ajuntar tudo, levar para casa e 

nem comentar o acontecido. Durante o almoço, todo mundo 

reclamando que o molho parecia cheio de areia e o pai mandou que 

calassem a boca e comessem, pois não havia nada de errado. A 

grossura dele ( ABAIXO ) me salvou.


Era o Açougue Fendrich ( ABAIXO ) o da história, e funcionou por mais de 

100 anos.

 Uma publicação da época da fundação ( ABAIXO , A EDIÇÃO DO JORNAL "DER VOLKSBOTE "  , DE 15 DE AGOSTO DE 1908 ) poderia ser usada 

hoje em dia para cativar clientes para um estabelecimento 

destinado a um público exigente e que busca diferenciais. 

As 

receitas foram preservadas: é questão de gosto, mas desconheço 

salames e salsichas tão saborosos quanto os feitos pelo Fendrich. 

Numa casa polonesa de embutidos, no Brooklyn, encontrei uma 

linguiça de cozinhar: a única parecida que já provei.
 

Agora, o Fendrich fechou; sem entrar na discussão de todas 

as razões de seu fechamento, há uma fundamental: a falta de 

políticas públicas de incentivo a iniciativas que preservem valores 

expressos em variadas manifestações culturais. Isso inclui a 

culinária, e com ênfase, afinal, podemos até ficar sem cantar, o que 

é péssimo, mas  não conseguimos ficar sem comer. 

E comer deve 

ser um prazer e uma forma de preservar e reforçar laços, inclusive 

com nossa história. 


A história do açougue é emblemática e, infelizmente, junta-se 

a de centenas de estabelecimentos que deixaram de existir ( ABAIXO , A FOTO A DESTACA A CONSTRUÇÃO ONDE FUNCIONOU A PADARIA ANEXA AO AÇOUGUE E QUE TAMBÉM PERTENCEU Á FAMÍLIA FENDRICH ) 


justamente por falta de políticas de valorização. 

Está na hora de rever como lidamos com o que nos deveria 

ser caro. " ( ABAIXO , A SAUDOSA CONFEITARIA DIETRICH , DURANTE DÉCADAS UM DOS PRINCIPAIS PONTOS DE ENCONTRO DE JOINVILLE  E QUE NO FIM DA DÉCADA DE 80 FOI ABSURDAMENTE DEMOLIDA PARA SERVIR DE ESTACIONAMENTO ) 

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